Quais exames a reposição de testosterona exige, quando colher em cada via e por que dosar éster de ação curta no pico produz redução de dose em quem estava adequado.

Acompanhamento de quem faz TRT: exames e cadência

Resumo: o acompanhamento da reposição de testosterona se organiza em torno de três eixos: eficácia (sintoma e nível sérico no ponto certo da curva), segurança hematológica (hematócrito) e segurança prostática (PSA com linha de base). O erro mais frequente é dosar éster de ação curta no pico e ajustar a dose por aquele número, o que produz redução em paciente que estava adequado. O dia da coleta depende da via, e comparar exames colhidos em pontos diferentes da curva compara coisas diferentes.

Prescrever é a parte curta. O que decide o resultado ao longo dos anos é o acompanhamento, e ele tem regras próprias que quase nenhum material explica.

O erro número um: colher no ponto errado

Cada formulação tem uma curva, e cada curva tem um ponto em que a coleta informa.

O cipionato de 200 mg intramuscular triplica a testosterona nos primeiros dias, leva metade dos homens acima de 1.200 ng/dL e devolve todos ao basal entre o 13º e o 14º dia [1]. Colher esse paciente no terceiro dia e ver 1.100 ng/dL não descreve o tratamento dele, descreve o pico.

Reduzir a dose por causa desse número entrega um paciente que passará o fim do intervalo ainda mais baixo do que já passava.

A regra: a coleta de controle respeita a farmacocinética da formulação usada, e a comparação entre exames só vale quando o ponto da curva é o mesmo.

Para o gel, existe um dado que simplifica: a absorção é quase constante dentro do mesmo indivíduo, com duas coletas feitas no mesmo horário em manhãs diferentes não diferindo entre si em nenhuma fração [2]. No seguimento do gel, uma coleta basta, feita antes da aplicação do dia, a partir do terceiro dia de uso.

O painel, e o que cada item responde

ExameO que respondeQuando
Testosterona totaleficácia, no ponto certo da curvaantes de iniciar, 3 a 6 meses, depois anual
Testosterona livre calculada, SHBG e albuminaeficácia quando a total enganaquando houver motivo para SHBG alterada
Hematócrito e hemoglobinasegurança hematológica3 a 6 meses, depois anual
PSAsegurança prostáticalinha de base antes de iniciar, nova linha aos 3 a 4 meses
Estradiolcontexto, lido contra a testosteronaquando houver sintoma mamário ou suspeita
LH e FSHestado do eixobasal, e no acompanhamento de recuperação
Perfil lipídico e glicêmicocomorbidadeconforme risco basal
Pressão arterialsegurançaa cada consulta
Sintoma e função sexualo desfecho que importaa cada consulta

Hematócrito: o item que mais gera conduta

A eritrocitose é o efeito adverso mais reprodutível da reposição, com 17,0% no TRAVERSE contra 3,3% no placebo, e 22% dos tratados no T4DM disparando o gatilho de hematócrito acima de 54% [3].

O gatilho operacional que eu uso é hematócrito igual ou acima de 54% para reduzir dose, suspender e reavaliar, com medida repetida antes de agir. O detalhamento está em hematócrito na testosterona.

Dois cuidados que evitam conduta desnecessária:

Hidratação antes da coleta. Hemoconcentração da véspera infla o hematócrito e pode gerar uma sangria que o paciente não precisava.

Hematócrito alto antes da primeira aplicação. Não pode ser efeito de um tratamento que não começou. É achado a esclarecer, com apneia do sono e tabagismo entre as causas frequentes.

E quando o hematócrito é o fator limitante, trocar a via costuma resolver mais do que cortar dose: o éster curto intramuscular semanal deu 66,7% de eritrocitose contra 12,8% do gel transdérmico na comparação direta [4].

PSA: o comportamento esperado

Testosterona baixa rebaixa o PSA. Ao repor, o PSA sobe, e essa subida representa repleção androgênica de um tecido que estava subestimulado, com nova linha de base aos 3 a 4 meses [5].

O dado que orienta o seguimento vem de ensaio randomizado: a diferença de PSA entre testosterona e placebo sobe cedo e não se alarga depois do primeiro ano [6]. PSA que segue subindo no segundo ano exige investigação própria, e não atribuição automática ao tratamento. O tema está em TRT e próstata.

Estradiol: lido contra a testosterona

Estradiol elevado no laudo, isolado, não indica conduta.

O que decide é a relação entre testosterona e estradiol somada ao sintoma. A proporção que eu espero é de cerca de 20 para 1, com testosterona em ng/dL e estradiol em pg/mL. Um estradiol de 40 pg/mL pede uma testosterona por volta de 800 ng/dL para ser proporcional.

E existe um argumento contra zerar o estradiol que precisa circular: bloquear a aromatase durante a reposição apagou parte do ganho de libido e de função erétil e da perda de gordura, sem mexer na massa magra nem na força [7]. Quem derruba o estradiol apaga justamente o que o paciente queria. Além disso, em homens coronariopatas o que estava alterado era o estradiol baixo e a razão testosterona sobre estradiol alta, e não a testosterona absoluta [8].

Ginecomastia é diagnóstico de exame físico, com massa subareolar de cerca de 0,5 cm ou mais. O detalhamento está em ginecomastia por esteroide.

O que o acompanhamento precisa perguntar, e não só medir

Três perguntas que mudam conduta e não aparecem em nenhum laudo:

Existe desejo de ter filhos, agora ou no futuro? A reposição suprime a espermatogênese, e essa conversa precisa acontecer antes da primeira aplicação, tema de testosterona e fertilidade.

Como está o sono, e existe roncopatia ou sonolência diurna? Apneia do sono se associa a testosterona total mais baixa com livre preservada, e existe caminho inverso em que a reposição piora a apneia em janelas específicas.

O sintoma que motivou o tratamento melhorou? É o desfecho que importa, e ele não aparece em nenhum exame. Nível sérico adequado com sintoma inalterado exige revisão do diagnóstico, e não aumento de dose.

Quando reavaliar a indicação inteira

Existem três situações em que o acompanhamento deixa de ser ajuste e passa a ser revisão do diagnóstico:

Ausência completa de resposta clínica em dose adequada. Três hipóteses antes de escalar: o produto não entregou o que diz, a coleta não foi feita no ponto certo da curva, ou o sintoma tinha outra causa desde o início.

Causa funcional que foi corrigida. Quem começou a reposição em contexto de obesidade importante ou restrição alimentar e depois corrigiu a causa pode não precisar mais do hormônio. Reavaliar a indicação depois de uma perda de peso relevante é conduta, e não desconfiança do tratamento.

Quadro que sugere hipogonadismo induzido por androgênio exógeno. Aqui a reposição contínua mantém desligado o eixo que se quer religar, e o caminho é outro, descrito em depois do ciclo.

Um caso, de-identificado

A situação. Homem adulto com hipogonadismo confirmado em duas dosagens abaixo de 300 ng/dL em anos diferentes, dez semanas de éster injetável autoadministrado de produto sem rastreabilidade, sem qualquer melhora de disposição, força ou libido. O pedido era aumentar a dose.

O raciocínio. Com dez semanas de uso e a dose já acima da faixa de reposição, o que faltava não era dose. Faltava saber o que aquele frasco tinha entregado, e o único dado capaz de responder era o nível sérico colhido no ponto certo da curva daquela formulação.

O que eu aprendi. Ausência completa de resposta em dose adequada levanta três hipóteses antes de escalar, e todas são de informação, e não de exposição. Subir dose sem responder as três transforma um problema de informação em um problema de exposição.

O porém

Três ressalvas.

As cadências descritas aqui vêm de diretriz e de prática, e não de ensaios desenhados para testar intervalos de acompanhamento. Elas são convenções operacionais defensáveis.

A razão de 20 para 1 entre testosterona e estradiol é referência prática de consultório, útil para dar contexto ao número e sem validação em estudo.

E o acompanhamento é individual. Comorbidade cardiovascular, história prostática, desejo de fertilidade e via de administração mudam a lista e a frequência.

Perguntas frequentes

Quais exames fazer durante a reposição de testosterona?
Testosterona total no ponto certo da curva, hematócrito e hemoglobina, PSA com linha de base prévia, além de pressão arterial e avaliação clínica do sintoma. Testosterona livre calculada, estradiol, LH e FSH entram conforme o contexto.

Quando colher o exame de controle da testosterona?
Depende da via. Para gel, antes da aplicação do dia, a partir do terceiro dia de uso. Para ésteres injetáveis, respeitando o ponto da curva daquela formulação. Dosar éster de ação curta no pico e ajustar por esse número reduz dose em quem estava adequado.

De quanto em quanto tempo repetir os exames?
Em geral aos 3 a 6 meses do início e depois anualmente, com o hematócrito seguindo a mesma cadência em reposição estável e mais frequente quando houver histórico de eritrocitose.

Meu estradiol subiu com a testosterona, preciso tratar?
Estradiol elevado isolado não indica conduta. O que decide é a relação com a testosterona somada ao sintoma e ao exame físico. Zerar o estradiol apaga parte do ganho de libido e de função erétil.

Estou em reposição e não senti diferença, devo aumentar a dose?
Antes de aumentar, três hipóteses precisam ser afastadas: o produto pode não ter entregado o que promete, a coleta pode ter sido feita no ponto errado da curva, e o sintoma pode ter outra causa.

Leitura relacionada

Referências

  1. Nankin HR. Hormone kinetics after intramuscular testosterone cypionate. Fertil Steril. 1987;47(6):1004-1009.
  2. Estudo de variabilidade intraindividual da absorção do gel de testosterona, com coletas pareadas no mesmo horário.
  3. Wittert G, Bracken K, Robledo KP, et al. Testosterone treatment to prevent or revert type 2 diabetes (T4DM). Lancet Diabetes Endocrinol. 2021;9(1):32-45. DOI: 10.1016/S2213-8587(20)30367-3
  4. Ohlander SJ, Varghese B, Pastuszak AW. Erythrocytosis following testosterone therapy. Sex Med Rev. 2018;6(1):77-85. DOI: 10.1016/j.sxmr.2017.04.001
  5. Morgentaler A, Caliber M. Safety of testosterone therapy in men with prostate cancer. Expert Opin Drug Saf. 2019. DOI: 10.1080/14740338.2019.1666103
  6. Bhasin S, Travison TG, Pencina KM, et al. Prostate Safety Events During Testosterone Replacement Therapy. JAMA Netw Open. 2023;6(12):e2348692. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2023.48692
  7. Finkelstein JS, Lee H, Burnett-Bowie SA, et al. Gonadal steroids and body composition, strength, and sexual function in men. N Engl J Med. 2013;369:1011.
  8. Zheng HY, Li Y, Dai W, Wei CD, Sun KS, Tong YQ. Imbalance of testosterone/estradiol ratio in men with coronary artery disease. Biomed Mater Eng. 2012;22:179-185. DOI: 10.3233/BME-2012-0705
  9. Jayasena CN, Anderson RA, Llahana S, et al. Society for Endocrinology guidelines for testosterone replacement therapy in male hypogonadism. Clin Endocrinol (Oxf). 2022;96(2):200-219. DOI: 10.1111/cen.14633

Compartilhe este post:

Facebook
WhatsApp
Telegram