Resumo: em meta-análise de 11 ensaios controlados por placebo com 254 adultos jovens saudáveis, o hormônio do crescimento (GH) aumentou massa magra em 2,86 kg, e 1,77 kg desse total era água extracelular, com massa celular corporal subindo 0,90 kg sem significância (p = 0,07), enquanto força e consumo máximo de oxigênio não mudaram. Entre 44 produtos vendidos online como moduladores seletivos do receptor androgênico (SARM), apenas 52% continham de fato um SARM. E os peptídeos secretagogos não têm estudo de segurança em humanos.
Este texto é educativo e não traz dose, esquema nem forma de uso. Ele descreve o que a literatura mostra sobre três classes que circulam com promessa maior do que o dado sustenta.
Hormônio do crescimento: o ganho que é água
Esta é a meta-análise que resolve o tema para adulto jovem saudável [1]:
| Desfecho | Efeito do GH |
|---|---|
| Massa magra | mais 2,86 kg (IC95% 2,22 a 3,50) |
| Quanto disso era água extracelular | 1,77 kg |
| Massa celular corporal | mais 0,90 kg, sem significância (p = 0,07) |
| Força | sem mudança |
| Consumo máximo de oxigênio | sem mudança |
A balança sobe. O corpo parece mais cheio. E o compartimento que efetivamente carrega função contrátil quase não se moveu.
Isso conecta com uma regra geral deste blog: massa magra soma músculo, água, glicogênio, osso e vísceras, e não descreve músculo. O detalhamento está em massa magra não descreve músculo.
Existe ainda o descompasso de dose. A informação de bastidor no meio esportivo aponta uso muito acima da terapêutica, com autores estimando média em torno de 4 UI por dia contra uma dose terapêutica adulta de 1 a 2 UI por dia, e os estudos controlados mostram queda de gordura sem
ganho de força [2].
Nas doses menores usadas com finalidade estética, o ganho de massa magra é modesto justamente porque boa parte do que aparece na balança é água extracelular.
Sobre somar GH a esteroide: minha posição é que a associação acrescenta pouco benefício e amplifica o dano, com custo alto. Eu desaconselho a associação e não mantenho paciente usando GH para finalidade estética.
Sobre o IGF-1: no uso de GH, o IGF-1 e a proteína ligadora IGF-BP3 entram como marcadores de exposição e de segurança, para titular a dose biológica. Eles não são promessa de hipertrofia, e lê-los como tal inverte a função do exame.
Uma curiosidade que explica o cenário do doping: o teste de isoformas do GH pega uma janela de cerca de 24 horas, e o teste por marcadores biológicos alcança até 14 dias [3]. É essa diferença que explica por que centenas de exames em Atenas não deram um único positivo.
SARM: o problema começa no frasco
Os moduladores seletivos do receptor androgênico foram desenhados com a promessa de efeito anabólico com menos efeito androgênico. A promessa é farmacologicamente coerente e o que é vendido como SARM frequentemente não é SARM.
Entre 44 produtos vendidos online como SARM, apenas 52% continham de fato um SARM, e a rotulagem incorreta foi a regra, e não a exceção [4].
A supressão do eixo acontece, e é real. Em relato detalhado, cinco semanas de LGD-4033 derrubaram a testosterona total de 639 para 241 ng/dL e a SHBG de 29,9 para 6,1 nmol/L, com o FSH ainda abaixo da faixa de referência quatro semanas após o fim [5]. No mesmo relato, com MK-677 associado, o HDL caiu de 55 para 35 mg/dL, o LDL subiu de 90 para 126 mg/dL e a ALT triplicou, de 20 para 61 U/L [5].
O fígado tem assinatura própria. Nos 12 casos publicados de lesão hepática por SARM, o padrão se repete: bilirrubina acima de 2,5 vezes o limite superior, transaminases pouco alteradas e gama-glutamil transferase normal [6]. É uma colestase branda que os critérios clássicos de lesão hepática por droga deixam passar, e que passa despercebida por quem procura transaminase alta. Dois homens jovens desenvolveram icterícia e lesão colestática após ligandrol ou ostarina, com melhora apenas após três meses [7].
Conduta prática: quem chega usando SARM por conta própria se maneja como exposição androgênica. Rastrear supressão do eixo, hematócrito e função hepática, com o mesmo gatilho de conduta usado para EAA, e considerar meia-vida na condução da recuperação.
Cardarine e a confusão de nome
Vale desfazer um erro de nomenclatura que circula.
Cardarine não é SARM. É o agonista de PPARδ conhecido como GW501516, e o desenvolvimento clínico dele travou por sinal de carcinogênese. Os estudos que enterraram o composto foram bioensaios de dois anos em roedores, com mortalidade elevada em todas as doses testadas, principalmente por adenocarcinoma de endométrio [8].
O mesmo raciocínio de risco vale para o stenabolic, que ocupa a mesma prateleira dos moduladores não androgênicos.
Peptídeos: onde a redução de danos não existe
Este é o ponto em que a minha conduta é diferente do resto do texto.
Os peptídeos secretagogos de GH não têm estudo de segurança em humanos nem procedência confiável. E ao contrário do EAA, eles não abrem espaço para redução de danos.
A diferença é estrutural. No EAA existe meio-termo real: reduzir dose, trocar produto clandestino por alternativa rastreável quando houver indicação terapêutica, manejar o efeito adverso, vigiar consequência. No peptídeo não existe esse meio-termo. Sem estudo de segurança e sem procedência, não há o que titular nem o que monitorar de forma significativa. Restam duas posições: conivência com o uso, com risco jurídico real, ou corte.
Eu corto.
O que fica de cada classe
| Classe | O que o dado mostra | Onde mora o risco |
|---|---|---|
| GH em adulto jovem saudável | mais 2,86 kg de massa magra, 1,77 kg de água, sem ganho de força | metabólico, glicêmico, custo alto, ganho funcional ausente |
| SARM | supressão do eixo real, alteração lipídica marcada, colestase descrita | metade dos produtos não contém o que promete |
| Cardarine e afins | agonista PPARδ com sinal de carcinogênese em bioensaio de 2 anos | desenvolvimento clínico interrompido |
| Peptídeos secretagogos | sem estudo de segurança em humanos | procedência e ausência de qualquer parâmetro de vigilância |
Um caso, de-identificado
A situação. Homem adulto chegou usando um composto vendido como SARM, adquirido pela internet, com exames mostrando testosterona baixa, gonadotrofinas suprimidas, HDL bem abaixo do esperado e transaminases alteradas. Ele acreditava estar usando algo que “não suprime o eixo”.
O raciocínio. O padrão laboratorial descrevia exposição androgênica clássica, com supressão do eixo e alteração lipídica. A conduta foi tratar o quadro como exposição androgênica, com o painel hepático completo incluindo bilirrubina e gama-glutamil transferase, e não apenas transaminase.
O que eu aprendi. A promessa de seletividade não se traduz em ausência de supressão, e o produto comprado fora do circuito farmacêutico frequentemente não é o que o rótulo diz. A conduta que faz sentido é ler o exame e tratar a exposição que ele descreve, e não a exposição que o rótulo prometia.
O porém
Três ressalvas.
A meta-análise do GH avaliou adultos jovens saudáveis, com doses e duração próprias dos ensaios. Ela não descreve uso em dose alta por anos, e não se aplica à deficiência de GH diagnosticada, que é situação clínica diferente com indicação própria.
Boa parte do que se sabe sobre SARM em humanos vem de relatos de caso e de séries pequenas. Eles descrevem bem o que pode acontecer e são fracos para estimar frequência.
E os dados de carcinogênese do GW501516 vêm de bioensaio em roedores com doses altas. A extrapolação para humano em dose menor é incerta, e o desenvolvimento clínico interrompido é, por si, informação relevante sobre como o próprio fabricante leu o sinal.
Perguntas frequentes
Hormônio do crescimento aumenta massa muscular?
Em adultos jovens saudáveis, ele aumentou massa magra em 2,86 kg, com 1,77 kg desse total sendo água extracelular e a massa celular corporal subindo 0,90 kg sem significância. Força e consumo máximo de oxigênio não mudaram.
SARM é mais seguro que anabolizante?
A promessa de seletividade não se confirma na prática. A supressão do eixo é real e documentada, com alteração lipídica marcada e padrão próprio de lesão hepática colestática. Além disso, apenas 52% dos produtos vendidos online como SARM continham de fato um SARM.
Cardarine é SARM?
Não. É o agonista de PPARδ GW501516, cujo desenvolvimento clínico foi interrompido por sinal de carcinogênese em bioensaios de dois anos em roedores.
Peptídeos como ipamorelin e MK-677 são seguros?
Os secretagogos de GH não têm estudo de segurança em humanos nem procedência confiável. Ao contrário do esteroide androgênico, eles não oferecem parâmetros de titulação e vigilância que permitam uma abordagem de redução de danos.
Quais exames fazer se usei SARM?
A avaliação segue a de exposição androgênica: perfil hormonal com LH e FSH, hemograma, perfil lipídico e painel hepático completo com bilirrubina total e frações e gama-glutamil transferase, já que o padrão típico é colestático e passa despercebido em quem olha só transaminase.
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Referências
- Hermansen K, Bengtsen M, Kjær M, Vestergaard P, Jørgensen JOL. Impact of GH administration on athletic performance in healthy young adults: a systematic review and meta-analysis of placebo-controlled trials. Growth Horm IGF Res. 2017;34:38-44. DOI: 10.1016/j.ghir.2017.05.005
- Saugy M, Robinson N, Saudan C, Baume N, Avois L, Mangin P. Human growth hormone doping in sport. Br J Sports Med. 2006;40(Suppl I):i35-i39. DOI: 10.1136/bjsm.2006.027573
- Sönksen PH, Holt RIG. GH & IGF Research issue on doping with growth hormone. Growth Horm IGF Res. 2009;19(4):283-284. DOI: 10.1016/j.ghir.2009.04.002
- Van Wagoner RM, Eichner A, Bhasin S, Deuster PA, Eichner D. Chemical Composition and Labeling of Substances Marketed as Selective Androgen Receptor Modulators and Sold via the Internet. JAMA. 2017;318(20):2004-2010. DOI: 10.1001/jama.2017.17069
- Cardaci TD, Machek SB, Wilburn DT, et al. LGD-4033 and MK-677 use impacts body composition, circulating biomarkers, and skeletal muscle androgenic hormone and receptor content: A case report. Exp Physiol. 2022;107(12):1467-1476. DOI: 10.1113/EP090741
- Mohideen H, Hussain H, Dahiya DS, Wehbe H. Selective Androgen Receptor Modulators: An Emerging Liver Toxin. J Clin Transl Hepatol. 2023;11(1):188-196. DOI: 10.14218/jcth.2022.00207
- Koller T, Vrbova P, Meciarova I, et al. Liver injury associated with the use of selective androgen receptor modulators and post-cycle therapy. World J Clin Cases. 2021;9(16):4062-4071. DOI: 10.12998/wjcc.v9.i16.4062
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