Vias de reposição de testosterona: o que muda entre elas

Resumo: o princípio da reposição é chegar o mais perto possível do nível fisiológico, e é a curva de cada formulação que decide o resto. Éster injetável de ação curta produz pico suprafisiológico e vale baixo, com 66,7% de eritrocitose na comparação direta, contra 12,8% do gel transdérmico. As sociedades brasileiras recomendam contra implante subcutâneo manipulado, gel manipulado e testosterona oral no hipogonadismo masculino, por falta de farmacocinética validada.

Todas as formulações entregam a mesma molécula. O que separa uma da outra é o desenho da curva no tempo, e é a curva que produz efeito adverso, supressão do eixo e a diferença entre um paciente estável e um paciente em montanha-russa.

O princípio que organiza a escolha

A meta da reposição é aproximar o nível sérico do fisiológico. Os ésteres injetáveis clássicos erram por pico e por vale, e as formas orais 17-alfa-alquiladas foram abandonadas por hepatotoxicidade [1].

Guardando esse princípio, quase toda discussão sobre “qual a melhor via” vira uma pergunta melhor: qual curva se aproxima mais do fisiológico neste paciente, com a adesão que ele consegue manter.

A curva do éster injetável de ação curta

O trabalho de Nankin mediu isso com clareza em 11 homens hipogonadais. Uma aplicação intramuscular de 200 mg de cipionato triplicou a testosterona nos primeiros dias, levou metade dos homens acima de 1.200 ng/dL, e devolveu todos ao valor basal entre o 13º e o 14º dia [2].

Traduzindo para a clínica: no esquema de duas em duas semanas, o paciente passa alguns dias em nível suprafisiológico e chega ao fim do intervalo hipogonadal. É a origem do relato clássico de “funciona na primeira semana e cai na segunda”.

A consequência hematológica desse desenho é a mais bem documentada de todas.

Eritrocitose por via: o dado mais acionável

Na comparação direta de Pastuszak [3]:

FormulaçãoEritrocitose (hematócrito acima de 50%)
Éster curto intramuscular semanal66,7%
Implante subcutâneo (pellet)35,1%
Gel transdérmico12,8%
Undecanoato intramuscular de liberação prolongada7%

p menor que 0,0001 entre os grupos.

Quanto maior o pico, maior o estímulo à medula. Quando o hematócrito é o fator limitante de um paciente, trocar a via costuma resolver mais do que reduzir a dose, tema de hematócrito na testosterona.

Comparação prática entre as vias

ViaCurvaVantagemLimitação
Gel transdérmicodiária, estávelmenor eritrocitose, ajuste fino, interrupção rápidaadesão diária, risco de transferência por contato, absorção variável entre pessoas
Cipionato ou enantato intramuscularpico em dias, vale ao fimbarato, disponível, eficazpico suprafisiológico, eritrocitose alta, oscilação de sintoma
Undecanoato intramuscular de longa açãoestável por semanasmenos aplicações, menor eritrocitoseaplicação em serviço, ajuste lento, evento de embolia oleosa raro
Implante subcutâneoliberação prolongadacomodidadeprocedimento, ajuste difícil, versão manipulada sem farmacocinética validada
Oral 17-alfa-alquiladovariávelhistóricoabandonado por hepatotoxicidade

O que as sociedades brasileiras recomendam deixar de fora

O posicionamento conjunto de SBEM, SBU e ABEMSS recomenda contra três coisas no hipogonadismo masculino no Brasil [4]:

  • implante subcutâneo manipulado
  • gel manipulado
  • testosterona oral

A justificativa é dupla: falta de farmacocinética validada e alta incidência de policitemia secundária. Vale a pena entender o argumento da farmacocinética, porque ele é o mesmo que sustenta todo este texto. Um produto industrial tem curva conhecida, e por isso é possível prever o valor, escolher o dia da coleta e titular. Um produto manipulado sem estudo de liberação entrega uma curva desconhecida, e sobre curva desconhecida não se titula nada.

Na mulher a régua é ainda mais restritiva. SBEM, FEBRASGO e o Departamento de Cardiologia da Mulher da SBC registram que não existe formulação de testosterona aprovada pela ANVISA para uso feminino, desaconselham implante, pellet e manipulado, e classificam “hormônio bioidêntico”, “biodisponível” e “natural” como estratégia de marketing [5]. Isso está desenvolvido em testosterona na mulher.

Detalhes de execução que mudam o resultado

O gel se prescreve em miligramas, nunca em percentual. A concentração do produto descreve o frasco. A dose descreve o paciente. Cinco gramas de um gel a 1% entregam 50 mg de testosterona. Prescrever “aplicar o gel” sem miligrama abre espaço para erro de dez vezes.

Fracionar o gel muda o perfil. Dividir a mesma dose diária de gel a 2% em manhã e noite levou de 33% para 83% a fração de homens dentro do alvo bioquímico no pico, com queda do pico e subida do vale, e sem alteração de hematócrito, PSA ou LH [6]. Mesma dose, curva melhor.

O dia da coleta depende da via. Este é o erro de acompanhamento mais comum que eu vejo. Dosar um éster de ação curta no pico e titular a dose por aquele número produz redução de dose em paciente que estava adequado. A coleta de controle precisa respeitar a farmacocinética da formulação usada, e a comparação entre exames só vale se o ponto da curva for o mesmo.

A base transdérmica tem um uso próprio. A testosterona transdérmica é base sem éster, de ação curta, que não empilha dose a dose e suprime o eixo de forma dose-dependente, bem menos que o éster injetável. Essa propriedade a mantém útil em situações de recuperação de eixo, quando o objetivo é dar suporte sem aprofundar a supressão.

Um caso, de-identificado

A situação. Homem adulto com hipogonadismo confirmado em duas dosagens abaixo de 300 ng/dL em anos diferentes, dez semanas de éster injetável autoadministrado, produto sem rastreabilidade de origem, sem qualquer melhora de disposição, força ou libido.

O raciocínio. Com dez semanas de uso e a dose já acima da faixa de reposição, o que faltava naquele caso não era mais dose. Faltava saber o que o frasco tinha entregado. Sem produto rastreável, o nível sérico é o único dado capaz de dizer se o hormônio chegou, e ele precisava ser colhido no ponto certo da curva daquela formulação.

O que eu aprendi. Ausência completa de resposta clínica em dose adequada levanta três hipóteses antes de escalar: o produto não entregou o que diz, a coleta não foi feita no ponto certo da curva, ou o sintoma tinha outra causa desde o início. Subir dose sem responder essas três perguntas transforma um problema de informação em um problema de exposição.

O porém

Duas ressalvas.

A primeira: quase toda a comparação entre vias vem de estudos observacionais e de séries, e não de ensaios randomizados cabeça a cabeça com desfecho clínico. Os números de eritrocitose por formulação são consistentes e vêm de comparação retrospectiva.

A segunda: a melhor via é aquela que o paciente consegue manter. Gel com adesão ruim entrega menos que injetável bem aplicado. A conversa sobre curva precisa terminar em uma escolha que caiba na vida de quem vai usar.

Perguntas frequentes

Qual a melhor via de reposição de testosterona?

A que produz a curva mais próxima do fisiológico com a adesão que o paciente sustenta. O gel transdérmico tem o menor índice de eritrocitose entre as vias comuns, com 12,8% contra 66,7% do éster curto intramuscular semanal, e exige aplicação diária.

Gel de testosterona funciona igual à injeção?

Ambos elevam a testosterona. O gel entrega nível estável com muito menos eritrocitose, e o injetável de ação curta entrega pico suprafisiológico seguido de queda ao fim do intervalo. A diferença aparece mais nos efeitos adversos e na estabilidade do sintoma do que na média sérica.

Testosterona manipulada pode ser usada?

As sociedades brasileiras recomendam contra gel manipulado e implante subcutâneo manipulado no hipogonadismo masculino, por falta de farmacocinética validada e alta incidência de policitemia secundária. Sem curva conhecida, não existe base para titular dose.

Quando devo colher o exame de controle da testosterona?

Depende da via. Cada formulação tem um ponto da curva em que a coleta informa, e comparar exames colhidos em pontos diferentes da curva compara coisas diferentes. Dosar éster de ação curta no pico e ajustar por aquele número é erro frequente.

Implante de testosterona é seguro?

O implante industrial tem farmacocinética estudada e apresentou 35,1% de eritrocitose na comparação direta entre vias. A versão manipulada é desaconselhada pelas sociedades brasileiras por falta de estudo de liberação.

Leitura relacionada

Referências

  1. Behre HM, Wang C, Handelsman DJ, Nieschlag E. Pharmacology of testosterone preparations. In: Nieschlag E, Behre HM, eds. Testosterone: Action, Deficiency, Substitution, 3rd ed. Cambridge University Press, 2004. DOI: 10.1017/CBO9780511545221.015
  2. Nankin HR. Hormone kinetics after intramuscular testosterone cypionate. Fertil Steril. 1987;47(6):1004-1009.
  3. Ohlander SJ, Varghese B, Pastuszak AW. Erythrocytosis following testosterone therapy. Sex Med Rev. 2018;6(1):77-85. DOI: 10.1016/j.sxmr.2017.04.001
  4. Hohl A, Lopes L, Ronsoni MF, et al. Care of Patients with Male Hypogonadism: Joint Position Statement from SBEM, SBU and ABEMSS. Int Braz J Urol. 2026;52(3):e20250610. DOI: 10.1590/S1677-5538.IBJU.2025.0610
  5. SBEM, FEBRASGO e DCM-SBC. Nota conjunta sobre o uso de testosterona na mulher. 03/05/2025.
  6. Maltese V, Delbarba A, Gatta E, et al. Fractionated testosterone gel replacement therapy in clinical practice. Endocrine. 2026;91:189. DOI: 10.1007/s12020-026-04659-8

Marcos Cesar Staak Júnior, médico, CRM-SC 17642.
Conteúdo educativo, de caráter informativo. Não substitui consulta médica, avaliação individual nem prescrição. Caso clínico de-identificado. Revisado em 20/08/2026.

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